As histórias das histórias

PeDRo PIo na MARGeM do RIo

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Árvores imensas, rios que parecem mar, animais misteriosos e encantados. Essas eram as memórias da minha imaginação de criança sobre a Amazônia. Quando cheguei lá, achei tudo isso e mais. Tive a sorte de ir às comunidades ribeirinhas e quilombolas de Abaetetuba em companhia da professora Rosiane, que é filha de artesãos de brinquedos de miriti. Ela me contou histórias dela mesma e das ilhas fluviais, me apresentou à família, à tradição dos brinquedos de madeira e a muitas crianças.
“A água é viva, se não respeita ela reage”, disseram elas, que tomam banho no rio quase todos os dias, nadam, pescam, vão e voltam da escola de barco. Conhecem o comportamento das águas, seus encantos e perigos, seus barulhos e cheiros. As histórias de visagem (de medo), cheias de seres fantásticos, eram as preferidas. Nunca ouvi nenhuma sem o contador estar com uma alegria marota no rosto. No último dia de viagem, eu estava voltando extasiada de tanta aventura e açaí, quando o moço da lancha avisou: vai vir maresia. Rosiane perguntou: – Professora, a senhora sabe nadar?

Quando estavam para voltar, ouviram um barulho. Parecia uma agitação na água.
– Vai vim maresia – disse Cauê, sério.
– Ai Deus, e se for pororoca? – Itiele falou, tremendo enquanto saía da água.
Eles correram pelo mato, de volta. Chegaram perto de onde tinham parado.
O rio tinha subido rápido. A lancha ficou longe, afastada pela força da água. Mesmo que pudessem alcançá-la, não se podia navegar quando o rio ficava assim.
Eles se olharam. Molhados, águas agitadas, não dava para tentar nada.