As histórias das histórias

O CaSO do TUiUiÚ

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Quando cheguei perto das margens do rio Mutum, tive a sensação de estar sendo observada. Será que eram os jacarés e as cobras me olhando? Senti um medinho. Mas quando o rio se exibiu diante de mim espelhando o céu, não sobrou nada de medo, só susto de beleza. A natureza estava em equilíbrio e, com meu respeito, nenhum perigo me esperava.
O que me esperava eram as aventuras que a criançada animada de Cuiabá Mirim me contou enquanto imitava sons de pássaros, jogava bola e recolhia barro do rio pra fazer panelinha. Quase todos moram pertinho, passam a maior parte do dia juntos, brincam e conversam sem parar, almoçam na cozinha comunitária, vão e voltam da escola, ajudam os adultos. Cuidam dos pequenos, aprontam uns com os outros, conhecem as plantas, os bichos, os peixes, sabem fazer de tudo com muita autonomia. Por isso eles colecionam muitas histórias: travessuras secretas, brincadeiras inventadas, coisas que só um viu, coisas que ninguém viu (mas ouviu falar), briga de menino e menina, aventuras de roça e pescaria, bichos amigos… Tudo a mais deliciosa verdade!

De repente, perceberam uma sombra enorme passando por cima deles: era um tuiuiú.
– Corre Daniel, ele vai pousar. Vamos atrás pra ver se é ele – falou Zé Primo.
– Pára Daniel, deixa ele em paz – pediu Rosa.
Daniel mal encostou o barco, pulou para o barranco e correu até a casa do tio. Todos o seguiram, menos Rosa e Mauk.
Chegaram e deram com o tio na varanda, deitado na rede.
– Noite.
– Noite. Bença tio.